terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

19/02/2008 Arqueologia / Marluce Lopes

SÍTIO ARQUEOLÓGICO: UNIDADE BÁSICA DE ANÁLISE EM PRÉ-HISTÓRIA

Ø É definido como “uma concentração espacial de evidência material de atividade humana”(DEETZ 1967:11 apud HOODER & ORTON, Análisis espacial en arqueología, 1990)

Ø Figuram na categoria de sítios arqueológicos: uma casa isolada, um fosso de armazenamento, uma área contínua com casas ou fossos, um depósito de lixo e outros detritos de ocupação depositados durante o período sem mudanças significativas delimitados por desconformidades deposicionais, um enterramento isolado, um atelier ou área de trabalho isolada, um lugar de matança ou de caça isolada, um acampamento para passar a noite ou de curta duração, ou finalmente uma área que contenha tudo ou parte do anteriormente mencionado (CHANG (1972) apud: HOODER & ORTON, Análisis espacial en arqueología, 1990).

Ø Nessa linha de raciocínio classifica-se um sítio arqueológico como sendo os lugares onde são encontrados conjuntamente artefatos, construções, estruturas e restos orgânicos ou ambientais. E mais rapidamente pode-se defini-los como lugares onde se identificam evidências significativas da atividade humana”.(BAHN, Paul; RENFREW, Colin. Arqueologia: teorias, métodos y prática. 1991

OS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DO REGISTRO ARQUEOLÓGICO:

Segundo Schiffer (1976, Formation Processes of the archaeological record) os processos de formação dos sítios arqueológicos são de duas ordens:
N-transforms (Processos de formação naturais):
a) a erosão eólica, hidráulica, movimentos de massa e gravidade, soterramento, desnudamento, deslizamentos de encostas, etc.

C-transforms (Processos de formação culturais):
b) o ato de habitar, explorar e modificar o ambiente, a seleção de materiais, atividades industriais, produção e deposição de refugo, áreas de atividade, etc.

Butzer (1989 Una ecología del Hombre: método y teoría para un enfoque contextual), enfoca, principalmente, os fatores da dinâmica geomorfológica como elementos de formação e perturbação do registro arqueológico.

a) A equação das variáveis que interferem em sua formação abrange as atividades humanas e os agentes não culturais. A geomorfologia local e regional é um dos condicionantes dos processos culturais e não culturais sendo determinante na sua preservação ou destruição.

AS EVIDÊNCIAS ENCONTRADAS NOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS:

São basicamente: os discretos vestígios da atividade humana, as evidências artefatuais e as evidências não-artefatuais.

a) As evidências artefatuais compõem os itens de cultura material: instrumentos de pedra, osso, conha ou madeira,

b) As evidências não-artefatuais: compõem as evidências culturais relevantes, mas não artefatuais (ecofatos), podem ser divididos em subclasses diferentes como o pólen, os solos e os ossos de animais. (Segundo BINFORD. Lewis R. An Archaeological Perspective. 1972.)


TIPOS DE SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS;

Os sítios podem ser identificados de acordo com classificações funcionais ou de acordo com as características, graus de preservação ou implantação:

a) sítios de obtenção e trabalho de matéria prima (sítios oficinas)
b) acampamento, estação de caça, aldeia
c) sítio com registros rupestres
c) sítios pré-cerâmicos ou cerâmicos (o índice é a cultura material)
d) sítios de superfície
e) sítio estratificado
f) abrigo sobre rocha
g) sítio sobre terraço fluvial ou marinho, sítio de encosta (classificação geomorfoloógica)
g) sítio de contato euro-indígena
h) sítio arqueológico histórico
i) sítio arqueológico urbano
BAHN, Paul; RENFREW, Colin. Archeology. Theories, Methods and Practice. Madri: Thames and Hudson. 1991.

A ARQUEOLOGIA COMO ANTROPOLOGIA

Ø A antropologia é, em sua definição geral, o estudo do homem – de nossas características físicas como animais e os traços únicos não biológicos que denominamos cultura –. Este, em sentido mais amplo, abarca o que o pioneiro da antropologia Edward Tylor resumiu adequadamente, em 1871, como “o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e quaisquer outras capacidade e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. Os antropólogos também empregam o termo cultura em um sentido mas restrito quando se refere à cultura de uma sociedade concreta, significando as características únicas não biológicas dessa sociedade, que a distinguem das restantes.
Ø Portanto, a antropologia é uma disciplina ampla – de fato, é tão extensa que se divide em três disciplinas menores: a antropologia física, a antropologia social ou cultural e a arqueologia.
Ø A antropologia física, denominada também antropologia biológica, se ocupa do estudo das características biológicas ou físicas do homem e de sua evolução.
Ø A antropologia cultural – ou antropologia social, com a chamam na Europa e em outros lugares – analisa a cultura e sociedades humanas. Dois ramos importantes da antropologia cultural são a etnografia (o estudo de culturas vivas individuais) e a etnologia (que trata de comparar culturas utilizando a evidência etnográfica, com o propósito de derivar princípios gerais sobre a sociedade humana).
Ø A arqueologia é o “tempo passado da antropologia cultural”. Enquanto os antropólogos culturais baseiam suas conclusões na experiência da vida real dentro das comunidades contemporâneas, os arqueólogos estudam as sociedades do passado, principalmente através de seus restos materiais – as construções, utensílios e demais artefatos que constituem o que se conhece como a cultura material deixada por aqueles.
Ø Uma das tarefas mais árdua para o arqueólogo na atualidade, é saber como interpretar a cultura material em termos humanos. Como se utilizaram esses recipientes? Porque algumas habitações são circulares e outras quadradas? Aqui, os métodos da arqueologia e da etnografia se superpõem. Nas últimas décadas, os arqueólogos tem desenvolvido a etnoarqueologia, na qual, igualmente aos etnógrafos, estes começam a viverem em comunidade contemporâneas, com o propósito específico de entender como usam a cultura material dessas sociedades – como fabricavam seus utensílios e armas, porque construíram seus assentamentos, onde o fizeram, etc.

A arqueologia como História

Ø Então, se a arqueologia se ocupa do passado, em que modo se diferencia da história? Em seu sentido mais amplo, como se considera que a arqueologia é um aspecto da antropologia, também se considera que esta seja parte da história – entendida como crônica completa da humanidade desde seu começo a uns três milhões de anos atrás. Claro que, para mais de 99% desse enorme lapso de tempo, a arqueologia – o estudo da cultura material do passado, é a única fonte significativa de informação, se excluímos a antropologia física, que se concentra mais em nosso processo biológico que no material.
Ø As fontes históricas convencionais só começam como o nascimento dos documentos escritos, que se produziu na Ásia Oriental. Por esta razão, é bastante comum a distinção que se faz entre pré-história – o período anterior a escrita – e história no sentido estrito, que supõem o estudo do passado através da evidência escrita. Não obstante, como constará nesse livro, a arqueologia pode contribuir em grande medida para a compreensão inclusive daqueles períodos e lugares onde existem documentos, inscrições e outras evidências literárias. Com freqüência é o arqueólogo quem primeiros descobre estes testemunhos.

A Arqueologia como Ciência

Ø Dado que o propósito da arqueologia é a compreensão do gênero humano, constitui uma disciplina humanística, uma ciência humana. E já que se ocupa do passado do homem, é uma disciplina histórica. Porém se diferencia do estudo da história escrita – ainda que a utiliza – em um aspecto fundamental. Os materiais que os arqueólogos encontram não nos diz diretamente o que devemos pensar. O registro histórico faz declarações, oferece opiniões, emite juízos (ainda que estas declarações e estes juízos devam ser interpretados). Os objetos que descobrem os arqueólogos, por sua vez, não diz nada de si mesmo diretamente. Somos nós, no presente, que devemos dar-lhes sentido. Deste ponto de vista, a prática da arqueologia é bastante similar a do cientista. O cientista recolhe dados (evidências), realiza experimentos, formula uma hipótese (uma proposição para explicar os dados), contrasta as hipóteses com mais dados e, como conclusão, elabora um modelo (uma descrição que parece idônea para resumir o padrão observado na evidência). A arqueologia é muito similar em vários aspectos. O arqueólogo tem que desenvolver uma imagem do passado, do mesmo modo que o cientista tem de elaborar uma versão coerente do mundo natural.
Ø A arqueologia é tanto uma ciência como uma disciplina humanística. E um dos seus encantos reflete a inventiva do homem cientista igual ao do historiador atual. Os métodos técnicos da ciência arqueológica são os mais evidentes, desde a datação radiocarbônica até o estudo dos resíduos de alimentos em vasilhas. São igualmente importantes os métodos científicos de análises por dedução.

Objetivos e problemas

Ø Se nossa meta consiste em conhecer o passado humano, é aí onde reside, precisamente, a principal dificuldade do que pretendemos descobrir. Os enfoques tradicionais se inclinaram a considerar o objetivo da pré-história, sobre tudo, como uma construção: unir as peças de um quebra-cabeça. Porém agora não basta simplesmente recriar a cultura material de períodos remotos.
Ø Se tem definido um novo objetivo em termos de “a reconstrução do modo de vida das pessoas responsáveis pelo registro arqueológico”. Assim dito, nos interessa ter uma imagem clara de como viviam as pessoas, e como exploravam o entorno ambiental. Porém, também pretendemos entender por quê viviam dessa forma: por quê adotaram esses padrões de comportamento e como chegaram a adquirir seus modos de vida e sua cultura material.
Ø Há muitos problemas importantes que nos preocupam neste momento. Queremos compreender as circunstâncias em que apareceram pela primeira vez nossas antepassados. Sucedeu, isto, na África e somente ali, como tudo parece indicar? Eram estes humanos autênticos caçadores ou carniceiros? Quais foram as circunstâncias em que evoluiu nossa própria espécie de Homo sapiens sapiens? Como explicamos o nascimento da arte paleolítica? Por que parece ser tão limitada sua distribuição? Como se produziu a mudança desde a caça e a coleta até a agricultura na Ásia Ocidental, Mesoamérica e outras partes do mundo? Por que ocorreu no transcurso de só uns poucos milênios? Como explicarmos o surgimento das cidades em distintas partes do mundo de forma aparentemente independente? A lista de perguntas é continua e, traz estas questões gerais, existem outras mais específicas. Queremos saber por que uma determinada cultura adotou uma forma e não outra: como podemos sugerir suas particularidade e como influíram estas em seu desenvolvimento.

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